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InternetEscola de Magistrados#EMAGConectaConexãoEMAG - Língua PortuguesaÉ certo falar MENOS PIOR?

É certo falar MENOS PIOR?

Antes de entrar nessa questão, vamos lembrar que os adjetivos têm três graus comparativos:

– de igualdade (tão alto quanto; tão bonito quanto);

– de superioridade (mais alto que; mais bonito que);

– de inferioridade (menos alto que, menos bonito que).

Para dar a noção de grau ao adjetivo, fazemos uso de advérbios. Nos casos acima mencionados, “tão”, “mais” e “menos” exercem a função de advérbio.

No entanto, como em quase toda regra na língua portuguesa, existem exceções. No caso do comparativo de superioridade, quatro adjetivos não aceitam o uso do advérbio “mais”. São eles: “grande”; “pequeno”; “bom”; “ruim” (não se fala “mais grande” nem “mais bom”, por exemplo). Esses adjetivos, quando em contextos de comparativo de superioridade, tornam-se, respectivamente, “maior”; “menor”; “melhor”; “pior”.

Desse modo, vê-se que “pior” é o comparativo de superioridade de “ruim”. Não fosse aquela regra de não ser possível usar o advérbio “mais” antes do adjetivo “ruim”, seria o caso de se dizer “mais ruim”. No entanto, por ser uma exceção, devemos falar “pior”:

“O meu desempenho no ENEM foi pior (e não “mais ruim”) que o seu, não terei chance nenhuma de passar em medicina.”

Além disso, devemos considerar outra questão: em uma mesma frase, não é possível usar dois graus diferentes relativos ao mesmo adjetivo. No caso que ensejou este verbete, “menos pior”, é possível verificar um contrassenso, exemplificado nesta frase:

“Como todos os filmes parecem bem fracos, vamos escolher o menos pior.”

“Pior”, como já dissemos, tem, no seu bojo, a noção de “mais ruim”. Logo, falar “menos pior” seria como se falássemos “menos mais ruim”, empregando-se ao mesmo tempo o comparativo de inferioridade “menos” e o comparativo de superioridade “mais”. Tal construção é tida como esdrúxula, ilógica, uma vez que reúne duas comparações opostas.

Assim sendo, no exemplo acima, o correto seria usar o adjetivo equivalente a pior no grau normal, ou seja, “ruim”, e usar o comparativo de inferioridade “menos”. Logo, teríamos:

“Como todos os filmes parecem bem fracos, vamos escolher o menos ruim.”

Claro que aqui estamos versando sobre um tema à luz da gramática, obedecendo a regras de construção/estruturação da língua. Contudo, nunca é demais dizer, a língua é viva, ela é elaborada, reelaborada, reinventada cotidianamente, e, por vezes, quando se quer produzir um efeito semântico mais preciso, tais regras são postas em xeque, ou, no mínimo, relativizadas. Não por acaso, temos a figura de linguagem do paradoxo, que subverte eventuais regras lógicas de sentido para se elaborar uma ideia absurda e, ao mesmo tempo, original. Um clássico exemplo é uma obra de nosso maior poeta, Carlos Drummond de Andrade, intitulada “Claro enigma. Por definição, um enigma não pode ser claro porque, se o fosse, não seria enigma, não é mesmo? Naturalmente, não se trata de comparar uma expressão cunhada por um poeta do cânone literário com uma expressão cotidiana como “menos pior”, mas, sim, de mostrar que a língua dá azo a invenções que, se não são lógicas, mostram uma inventividade que reflete muito o espírito de seus falantes.

 

 

Publicado em 02/12/2021 às 19h37 e atualizado em 16/02/2022 às 16h25